PETER IRISH
O GURU DO FOOTBAG

Comemorando o segundo ano da Associação Brasileira de Footbag, apresentamos uma entrevista histórica com uma das lendas do footbag, Peter Irish. Campeão no freestyle por cinco vezes (91, 92, 93, 95 e 97), Peter é um remanescente do footbag roots, tendo completado 20 anos de participação em torneios de freestyle. Prestes a se "aposentar", ele fala um pouco da sua trajetória e o que espera para o futuro.

FOOTBAG BRASIL: Peter Irish, você é irlandês?

PETER IRISH: Na verdade, sim, eu sou. Meu avô, por parte de mãe, nasceu na Irlanda e veio para Nova Iorque nos anos 50. A casa onde ele nasceu ainda existe e um dia espero conhecê-la. O sobrenome Irish vem da Inglaterra por parte de pai. Isso significa que tenho “duas” descendências irlandesas: tanto no nome, quanto no sangue. Apesar disso, nunca estive lá. O Festival Europeu de Malabarismo de 2006 será realizado na Irlanda e esta seria uma ótima oportunidade de conhecer esse país, mas acho que ainda não vai ser dessa vez.

FB: Pelo que sabemos, você ganhou sua primeira bola de footbag em 1982, mas só começou a praticar pra valer depois de 3 anos. Por quê?

PETER: Naquela época, meu pai me deu uma bola de footbag porque eu costumava jogar muito futebol. Mas na mesma época eu comecei a andar de skate e fiquei totalmente viciado naquilo. Eu andava de skate sempre que podia, todo dia, até mesmo quando tinha neve. Em 1982 o skate era febre na minha cidade natal Virginia Beach, na Virginia. Cinco halfpipes enormes foram construídos na cidade e todo ano tinha um grande torneio profissional. Todos os feras da época estavam lá: Lance Mountain, Steve Caballero, Mike McGill, Gator Rogowski, Christian Hosoi e por aí vai. Tony Hawk esteve lá quando ainda era um pirralho de 14 anos, e mesmo assim o cara era o melhor.

Eu costumava ver Rodney Mullin fazer manobras de freestyle num skate minúsculo pelas ruas da cidade. Ele fazia coisas que atualmente são as bases para o street, além de kick flips e outras coisas. É mais ou menos o que aconteceu com o footbag freestyle, só que num contexto diferente é claro. Com o tempo comecei a me interessar mais pelo skate vertical e passei para os halfpipes. Eu me dedicava muito e já estava mandando bem até. Eu nunca desistia. Depois que eu quebrei meu braço pela segunda vez senti que meu corpo pedia pra eu maneirar. Foi aí que, mesmo com o braço engessado, comecei a jogar “hacky sack” de novo, graças à insistência de um grande amigo meu, Billy Owens.

FB: Seu primeiro campeonato foi em 1986 num regional da Costa Leste americana. Você poderia descrever o cenário dos eventos naquela época?

PETER: Eu nunca tinha ido a nenhum evento de footbag. Eu ainda era uma criança e não conhecia ninguém. Eu era bom em chutes consecutivos e naquela época conseguia fazer uns 6.000. Eu também tinha inventado umas manobras próprias de freestyle, mas nunca tinha visto ninguém jogando pra valer. Eu fui para o campeonato achando que iria arrebentar a boca do balão. Puro engano. Vários dos tops da época estavam lá, na sua maioria jogadores da modalidade Net. A Associação Mundial de Footbag estava presente no evento e alguns dos integrantes do Hall da Fama do footbag também, como Jeff “Animal” Johnson, Chris “Gator” Rough, Peter Shunny e Jim Caveny.

Mas a melhor coisa foi ver Andy Linder, o campeão nacional de Freestyle da época. Quando eu vi o cara fazer um volta-ao-mundo-duplo entre dois chutes (sem parar o footbag no pé) eu me dei conta que ainda era um pereba, mas que iria jogar tão bem quanto ele, não importando quanto tempo isso levaria. Outro fato importante nesse evento foi ter conhecido o meu futuro parceiro de Freestyle, Eric Wulff. O nível dos praticantes de freestyle no campeonato era bem baixo, com exceção de Andy Linder, Eric Wulff e algumas lendas da costa leste como Mark Cicetti, Dale Crawford e Peter Chandler.

Havia uma grande variedade de manobras e tipos de stalls diferentes, mas ainda não havia shred de fato, apenas flyers e chutes informais. Mesmo assim, aquele final de semana serviu para me deixar obcecado por footbag e eu não parei desde então. No verão de 2006 acontecerá novamente o campeonato da Costa Leste e estarei completando 20 anos de torneios. Provavelmente ali farei minha última apresentação como competidor.

FB: Como eram os “bons velhos tempos” do footbag?

PETER: Bem diferentes. Ninguém jogava footbag fora dos EUA, com exceção de Allan Peterson, Remi Kristenson (Dinamarca) e talvez alguns canadenses. Quem comparecia ao campeonato mundial era apenas um pequeno grupo de praticantes. O Mundial acontecia todo ano no Estado do Colorado, e assim foi por aproximadamente 10 anos consecutivos. Eram sempre os mesmos praticantes e isso resultava num forte relacionamento de amizade entre as pessoas. Não havia uma divisão concreta entre freestyle e net, pois todos praticamente jogavam ambas as modalidades.

O freestyle era muito underground ainda não havia nada parecido com o que se vê atualmente. A modalidade Net era a bola da vez. Todo mundo ficava no mesmo hotel – no Holidome, e era tudo uma grande festa. Entretanto, era um grupo reduzido de pessoas e tudo era muito pequeno. Posso dizer que, antigamente eu conhecia todas as pessoas no mundo que jogavam footbag. Hoje em dia, em qualquer evento que eu vá, não conheço nem 80% dos freestylers.

FB: Havia (ou ainda existe) alguma disputa entre as costas leste e oeste americanas? Qual das duas é melhor?

PETER: Não existe nenhum tipo de disputa entre os jogadores nos EUA. No começo dos anos 90 havia uma rivalidade-saudável entre as costas leste e oeste, mas nada que comprometesse a amizade entre os praticantes. Nenhuma das duas é melhor. Ambas possuem excelentes jogadores. Contudo, existem algumas diferenças entre elas.

Na costa oeste parece que o footbag está dividido em estados ou regiões. Por exemplo, existe um forte cenário em Portland (Oregon), San Diego (California) e Seatle (Washington). Nestes lugares o footbag se desenvolve de forma auto-suficiente. Isto porque talvez não existam mais tantos torneios quanto antigamente. Por sua vez, na costa leste existem vários pequenos pontos de expansão e todos eles, de forma geral, se misturam. Assim, é possível identificar o “cenário da costa leste”, ao invés de destacar apenas as cidades de Rochester (Nova Iorque) ou Summerville (Nova Jersey). Parece que atualmente existem mais eventos acontecendo na costa leste, e isso leva a uma promoção maior do esporte dentro de um contexto de maior amplitude. Além disso, também existe um cenário forte no meio-oeste americano e no Canadá de forma geral, com ótimos jogadores surgindo.

FB: Você inspirou muitos praticantes em todo o mundo. Quem inspirou você?

PETER: Kenny Shults e Rippin Rick Reese foram e são os meus favoritos e as minhas duas grandes influências. Kenny era o líder do footbag e eu sempre o admirei, até hoje. Ele é indiscutivelmente o melhor de todos os tempos na combinação entre net e freestyle. Nenhum outro jogador chega perto da sua habilidade nas duas arenas, e acho que ninguém nunca chegará. Antigamente, até meados dos anos 90, Rippin Rick Reese foi o jogador mais hardcore de todos.

Em 1989 ele me disse: “você tem potencial”. Estas três palavras foram o meu combustível para várias horas de treino, todos os dias. Um ano depois eu havia feito um grande progresso. Numa das edições do campeonato mundial, Rippin me puxou para o canto e, em 2 horas, ele transformou a forma como eu jogava até então. Tanto que no ano seguinte venci o campeonato mundial de freestyle individual. Mesmo assim, Rippin continuou sendo o melhor por muitos, muitos anos. Por volta de 1992-93, sua habilidade era praticamente sobre-humana, literalmente. Tudo que eu podia fazer era tentar chegar perto da sua habilidade. Acho que eu finalmente consegui fazer isso em 1995, ano que eu atingi o ápice do meu desempenho. Eu adoraria poder pegar Rippin no seu auge e transportá-lo com suas habilidades para o presente e colocá-lo frente a frente com Vasek só pra ver o que iria acontecer. Seria interessante.

Kenny Shults e Rick Reese criaram o estilo de footbag que nós jogamos hoje, e ainda são grandes influências para mim, além de dois grandes amigos. Old-school freestylers, que estavam no topo quando eu comecei a jogar também foram grandes influências. Jack Schoolcraft, Gary Lautt e Dennis Ross. Jogadores da costa leste que jogavam há bastante tempo quando eu apenas estava começando também me influenciaram muito, principalmente o Ocean County Clippers: Eric Wulff, Ed Orlando e Russ Thomas. Estes três jogavam freestyle quando eu apareci no meu primeiro campeonato. Eles tinham a minha idade e nós rapidamente nos tornamos amigos. Aprendi muito com Eric Wulff no começo. Nós acabamos nos tornando parceiros de freestyle e vencemos no campeonato de 1996 na modalidade freestyle em dupla.

A propósito, Eric Wulff era o único jogador que eu literalmente tinha medo de enfrentar em competições individuais. Certa vez, quando ele foi se apresentar num campeonato mundial eu cheguei a sair do local da competição. Eu não queria nem ver, nem estar perto dele. Ele jogava intensamente e era extremamente focado. O incrível é que ele ganhou apenas um título na categoria freestyle. Ainda assim ele deve ser considerado como um dos melhores jogadores de freestyle de todos os tempos. Ele é um dos poucos jogadores, se não o único, que pode dizer que nunca perdeu para Vasek Klouda em um torneio. Quando eu comecei a ficar bom no freestyle eu jogava com pessoas como Jay Moldenhauer e Greg Nelson e nós sempre estávamos tentando ultrapassar nossos limites. Já joguei regularmente por vários anos com pessoas como Tuan e Tu Vu, Tim Kelly, Ahren German, Sunil Jani e todos eles me inspiram a melhorar meu jogo. Estes cinco caras estão entre os meus favoritos de todos os tempos. Atualmente, jogadores como Jim Penske, Lon Smith, Jorden Moir, Vasek Klouda, Honza Weber, Feliz Zenger, Scott Bevier, John Schnieder e muitos outros são os responsáveis por eu ainda tentar sempre melhorar o meu jogo.

FB: O que veio primeiro na sua vida: footbag ou malabarismo?

PETER: Primeiro veio o footbag, mas não muito tempo depois comecei a praticar malabarismo. Quase que imediatamente eu me dei conta que um dia eu iria combinar os dois para criar alguma coisa nova, algo que realmente fiz. Hoje este é o meu foco na manipulação de objetos. Coisas do tipo, fazer malabares com 3 bolas nas mãos e 3 bolas nos pés ao mesmo tempo e diversas outras combinações. É isto que eu tenho praticado mais atualmente. Espero mostrar outras novidades em breve e quem sabe até fazer um vídeo. Também estou trabalhando num website que deverá estar no ar num futuro próximo. Estou tentando conseguir um auxílio governamental para o ramo artístico e talvez isso ajude. Por enquanto, este material estará disponível somente “ao vivo” e, por isso, quem tiver interesse terá que ir até um dos meus shows.

FB: Você se considera um footbagger ou um malabarista?

PETER: Eu não me limito a nenhum desses dois termos. Muita coisa que eu faço eu coloco tanto elementos de malabares quanto de footbag. Obviamente eu sou ambos, tanto malabarista quanto footbagger, mas eu procuro fazer muito mais que estas duas coisas e não apenas somá-las. Teve uma época que eu me considerava um footbagger e outra que eu me considerava um malabarista, mas agora eu prefiro não me rotular.

FB: Além disso, o que mais você pratica? Alguma outra coisa exótica?

PETER: Eu sou acumpulturista profissional e ando envolvido com trabalhos relacionados ao corpo. Eu estudo energia, meditação e metafísica. Eu faço tai-chi, qigong e yoga. Faço muitos trabalhos artísticos em geral, colagens, desenhos e pinturas. Também escrevo e venho trabalhando em cima de dois livros, que são meus projetos a longo prazo. Faço muitas apresentações, inclusive numa delas eu nem sequer chuto um footbag. Tenho levado o xadrez muito a sério ultimamente e estou me interessando muito pelo poker. Adoro jogos e artes em geral. A questão é que, se eu me interesso por alguma coisa, eu vou querer ser bom naquilo.

Hoje em dia estou focado mais em desenvolver meu corpo e minha mente a fim de atingir um bom condicionamento físico. Dessa forma eu posso ajudar as pessoas e ao mesmo tempo expressar minha criatividade independentemente do meio utilizado. Meu amigo Dan Holzman, que é campeão mundial de malabarismo, chama isso de “Programa de Treinamento do Homem Renascente” e acho que isso define bem as minhas intenções. Meu maior interesse na vida é o potencial humano: até onde o ser humano pode se desenvolver e como podemos superar nossos limites, que nós mesmos criamos a partir de um condicionamento social. É um tema complexo, mas ao mesmo tempo muito interessante. Eu percebi há muito tempo atrás que tudo que me foi ensinado na escola, tudo que eu via nos meios de comunicação e em outros recursos “oficiais” de informação era na sua maioria falso ou limitado.

Por isso resolvi dedicar meu tempo a fim de desenvolver uma visão de mundo alternativa visando a compreensão. Isso é um processo de treinamento constante e, nesta matéria, serei aluno para o resto de minha vida. Na verdade eu pratico várias atividades e como deu pra perceber me interesso por coisas bem variadas. Sendo assim, rejeito qualquer tipo de rotulação. A partir do momento que você se rotula, você está se limitando. Entretanto, um limite que eu imponho a mim é, numa roda de footbag, nunca passar para mim mesmo a bola de footbag. É assim que a coisa funcionava no começo e é assim que eu vou continuar fazendo enquanto eu jogar. Essa visão mudou bastante e hoje em dia as pessoas fazem o que querem numa roda de footbag. Não quero ensinar ninguém a jogar, esse é apenas o meu ponto de vista.

FB: E quanto ao seu nível de jogo? Ele está melhorando?

PETER: Por incrível que pareça sim, mas depois de 20 anos o meu desempenho tem crescido de forma diferente. Ano passado percebi que os meus joelhos não curtem muito double-dex ou manobras com symposium ou whirling. Footbag pode exigir muito do corpo, tanto no curto quanto no longo prazo. Contudo, se você joga de forma inteligente o dano físico é quase nulo. Por causa disso eu mudei bastante a forma como eu pratico, assim posso jogar por mais tempo. Isso tem sido muito bom para mim já que existem inúmeras direções que o esporte pode tomar, e não apenas uma que implique em alto-impacto para o corpo.

Manobras com whirl faziam parte do meu jogo por anos: ps whirls, stepping ps whirl, spinning whirls, blurry whirls eu fazia a toda hora. Agora ando mais focado em aspectos esotéricos do meu jogo como atomic backspinning, gogo sets, double spinning, blurry ducking e outras manobras mais estilizadas. Além disso, sempre curti combos longos e por isso esses aspectos se encaixam bem no meu perfil atual de jogo. Sendo assim, é legal poder tentar coisas novas e mudar de padrão mesmo depois de 20 anos. Fico impressionado como depois de tanto tempo ainda me sinto inspirado a jogar.

FB: Você acha que o preconceito contra “footbaggers” acabou nos EUA? Você já teve alguma experiência ruim nesse sentido?

PETER: Não, o preconceito ainda não acabou nos EUA. Muitas pessoas ainda conhecem o footbag apenas por “hacky sack”. Nos anos 80 essa era a grande moda e todo mundo tinha um hacky sack. Hoje praticamente todo mundo nos EUA sabe o que é um hacky sack. Mas foi ainda nos anos 80 que o jogo ficou associado aos hippies e às drogas, por isso para algumas pessoas essa associação ainda é válida hoje em dia. Quase ninguém tem conhecimento do nível que o esporte atingiu e pensam que footbag é sinônimo de adolescentes em círculo chutando um saquinho de feijão. Uma coisa que eu percebi é que essa mentalidade pode mudar a partir do momento que essas pessoas tem acesso ao que chamados de shred, ou um jogo intensivo.

Penso que o preconceito teria fim nos EUA se a exposição do esporte fosse maior. Seria ótimo se esse desconhecimento acabasse e acho que isso é bem possível de acontecer. Sobre alguma experiência ruim, não, eu nunca tive problemas. As pessoas que passam em volta ficam impressionadas e acho que essa experiência pode ser altamente rica em termos de criatividade, tanto para quem joga, quanto para quem assiste. Você pode conhecer pessoas que nunca teria a chance de conhecer, fazer coisas que não seriam possíveis se não fosse o footbag, conhecer lugares que nunca conheceria. Passei por muitas coisas na vida que eu jamais teria sonhado se não fosse o footbag.

FB: Você é um dos fundadores do Big Add Posse. Poderia explicar o que é isso?

PETER: Originalmente o Big Add Posse era um grupo de 7 amigos, praticantes de footbag, que possuíam um estilo de jogo semelhante ao que foi inventado por Kenny Shults e que vinha sendo desenvolvido por Rick Reese. O conceito de freestyle era novidade na época, e se resumia a juntar várias manobras a fim de formar uma combinação e, dessa forma, eliminar por completo os chutes. Esse foi o começo do que se convencionou chamar de shred. Esse novo conceito começou a ser seriamente explorado no começo dos anos 90 e os 7 integrantes iniciais foram os responsáveis por elevar o nível do footbag freestyle. Foram estabelecidos os conceitos tiltless e, logo após, guiltless. A maioria dos praticantes de footbag naquela época não apreciava o novo estilo e muitos simplesmente o ignoravam. Até então o “estilo livre” era jogado com base em chutes e flyers (saltos) e a modalidade mais promovida pela Associação Mundial de Footbag era a Net, inclusive nos campeonatos mundiais. Shred era sinônimo de footbag underground.

Os 7 praticantes originais eram: Kenny Shults, Rick Reese, eu, Joey Scaffer, Tim Kelly, Dennis Jones, Dimitri Kovorus. A princípio pensamos que o número de integrantes do Big Add Posse não iria aumentar, mas logo começaram a surgir novos adeptos: Eric Wulff, Scott Davidson, Greg Nelson, Tuan Vu, etc. Jogadores que demonstram ter superado seus limites, que adquirem um elevado nível técnico e mostram habilidade e criatividade são convidados a entrar no Big Add Posse uma vez por ano durante a edição do campeonato mundial. O processo de escolha é através de voto. Infelizmente alguns jogadores excepcionais que nunca terão a chance de entrar no Big Add Posse pois dificilmente poderão participar do campeonato mundial. Mas se a pessoa realmente quiser e fizer um esforço para comparecer, ela terá a chance de ser admitida no grupo.

Ultimamente tem havido algumas controvérsias sobre o Big Add Posse, isso porque alguns praticantes, que por uma razão ou outra não são convidados, dizem que o grupo é uma organização elitista dentro do footbag. O argumento é compreensível, mas elitizar o footbag não é o objetivo do BAP. É apenas uma questão de reconhecer esforço. Pessoalmente acho que as pessoas não devem fazer do BAP um objetivo a ser alcançado ou uma prioridade no footbag. Existem praticantes que recusaram o convite para entrar no BAP, um exemplo é Ken Somolinos. Eu acho isso excelente e respeito muito esse tipo de opinião. As pessoas devem jogar para elas mesmas e por amor ao jogo, ao invés de priorizar seus egos ou a entrada em alguma organização. Apesar disso, seguindo a visão inicial de Kenny e Rick, a Big Add Posse continua convidando novos membros. A BAP agora tem um website: www.bigaddposse.com, onde as pessoas podem aprender um pouco mais sobre essa organização.

FB: No Brasil é comum ver crianças de rua fazerem malabarismo nos semáforos em busca de esmola. Algumas delas aprenderam malabares através de ações de projetos sociais que tinham justamente a intenção de tirá-las das ruas. Algo um pouco contraditório. O que você acha disso? Você daria dinheiro a elas?

PETER: Ensinar malabares para crianças nunca é algo ruim. Se a criança é de rua, é melhor que ela tenha uma habilidade, mesmo que seja relacionada ao malabarismo. Como eu também sou um artista de rua, sim, eu daria dinheiro. Acho que um turista qualquer também daria se ele for um malabarista. Tenho o hábito de ajudar qualquer artista de rua que faça alguma coisa que me impressione. E se for criança, não é preciso me impressionar muito. Só o fato de uma criança fazer malabarismo para mim já é impressionante.

Nos EUA, se alguém está fazendo malabarismo na rua, é porque essa pessoa está fazendo um show com início, meio e fim, em um local específico, perto de alguma área turística. Se você for bom mesmo, é capaz de juntar um dinheiro considerável. Eu vivi por muitos anos dessa forma em São Francisco, California. Podem haver algumas exceções, mas a maioria dos malabaristas por aqui não vivem nas ruas, e nem foram crianças de rua. Essa é uma situação incomum que nós não estamos habituados, por isso eu não sei ao certo se esta é uma boa forma para elas conseguirem dinheiro. Se esta for a intenção, então os projetos sociais estão ajudando, caso contrário, eles deveriam procurar desenvolver outras habilidades.

FB: Como podemos perceber hoje em dia, o nível do esporte tem crescido muito. Como você avalia esse progresso?

PETER: Primeiramente, acho que a coisa evoluiu para um ponto onde tudo favorece as pessoas que estão começando no footbag. Contudo, ainda existe espaço para inovações, já que muitos conceitos e manobras são inventados e praticados por jogadores do mundo todo. Mas o padrão para os iniciantes atuais está muito elevado. Tudo está à mão. Qualquer pessoa no mundo tem acesso às ferramentas para aprender o jogo. Outra razão para isso é que a média de idade dos novos praticantes está caindo, e quando você ainda é novo, você tem todo o tempo do mundo para jogar, além disso, seu corpo não se afeta tanto com horas ininterruptas de jogo. Penso que a principal razão para o crescimento do footbag no mundo é que tudo está disponível na Internet, e devemos agradecer a Steve Goldberg por isso. Ele foi o pioneiro na Internet, tendo gastado muito do seu tempo e dinheiro a fim de promover o jogo. Tudo por amor ao footbag.

Ele desenvolveu a Associação Internacional de Footbag (IFPA), que é a maior fonte de informação sobre footbag na Internet. Ainda assim, acho que ele não tem um reconhecimento a altura. Também devemos agradecer muito as pessoas que devotam seus recursos pessoais para a promoção do esporte. Pessoas como Daryl Genz da Freedom Footbags que apoia todo e qualquer evento, distribuindo inúmeras bolas de footbag em todo o mundo. As footbags que ele faz são as melhores para os iniciantes, e ele consegue mantê-las a um preço muito acessível. Devemos agradecer também as pessoas que se dedicam na realização de eventos dos mais variados tipos. Seja um evento grande ou pequeno, estas pessoas não estão ali para ganhar dinheiro. Pelo contrário, muitas vezes acabam gastando seu próprio dinheiro a fim de tornar a comunidade footbag cada vez mais forte. Qualquer pessoa que tenha organizado um evento merece todo respeito do mundo

FB: Toda essa evolução de alguma forma afetou o espírito dos velhos tempos do footbag?

PETER: De forma geral, não. A comunidade footbag ainda é bastante reduzida, parecendo mais um grupo de bons amigos, e nas competições não existem animosidades entre os jogadores. Na verdade existe muita energia positiva entre todos. A maioria das pessoas que se sentem atraídas por footbag são pessoas fantásticas. O ego das pessoas ainda não aumentou, mas com o crescimento do esporte, um pouco de energia negativa também pode ser observada. Isso é normal e já deveria ser um fato esperado, mas o seu efeito mal é sentido pelas pessoas que fazem parte dessa comunidade. É interessante ficarmos atentos a estas mudanças a medida que o esporte for crescendo.

Eu realmente espero que o espírito original permaneça, já que as únicas coisas que eu ganhei após 20 anos de competições foram ótimos amigos. Footbag ainda não combina com riqueza e celebridades, por isso, se você está atrás de dinheiro ou fama, você está no lugar errado. Sabendo tudo que sei agora, se eu tivesse que escolher entre o aspecto comunitário e ganhar rios de dinheiro, eu escolheria a comunidade sem dúvida. Fama e dinheiro podem ser facilmente perdidos, mas eu fiz amizades que irão durar pro resto da vida. Por isso fico feliz de ter tido a chance de começar a jogar naquela época. Seria ótimo poder ver um dia jogadores ganhando dinheiro com o footbag, mas espero que eles descubram também as alegrias que eu descobri no aspecto social do esporte.

FB: E qual será o próximo passo? Misturar footbag com ginástica olímpica? Começar a jogar numa piscina talvez?

PETER: Seria algo interessante de ver. Acho que existem outras direções que podem definir os rumos do esporte no futuro. Fantasioso ou não, algumas delas podem ser vistas nessa pequena animação online. É óbvio que a maioria dessas manobras são impossíveis, mas essa animação dá uma pista do que está por vir. Acho que existem pessoas por aí capazes de fazer coisas inacreditáveis, como por exemplo: acrobatas chineses, jogadores profissionais de peteca, ginástas olímpicos, praticantes de artes marciais, que tenham sido treinados desde pequenos e que possuam habilidades com os pés. Como o footbag está crescendo no mundo inteiro, acho que é possível o footbag seguir outras direções. Esta possibilidade é ainda maior a partir do momento que o footbag ganha uma maior exposição em países onde o futebol é o esporte mais praticado (como o Brasil e outros países da América do Sul, por exemplo) e em países como a China.

Sobre os praticantes de peteca, na China eles já praticam o freestyle, só que utilizam um objeto diferente e possuem um outro estilo. Recentemente eu estive no Vietnan e no Cambodja. O esporte mais praticado no Vietnan se chama "Da Cau" e é jogado com uma peteca. Tive a chance de jogar com excelentes jogadores que faziam manobras fantásticas e diferentes do que a gente faz no footbag. Alguns desses jogadores eram senhores de idade avançada, que jogavam como se fossem adolescentes. Em todo lugar que eu ia eu via gente jogando peteca. Era comum ver crianças que mal sairam do berço chutando até 10 vezes a peteca com as duas pernas. E quando atingem uma idade mais elevada, eles levam a coisa a sério de verdade e talvez nem queiram saber de footbag.

Tuan Vu uma vez foi fazer uma demonstração de footbag em um centro de treinamento de peteca no Vietnan. Os alunos ficaram realmente impressionados e interessados. De repente os professores mandaram ele parar imediatamente, pois os alunos não poderiam ver aquilo. Eles não queriam nada que pudesse interferir no estilo de jogo que eles estavam aprendendo.

Este é o esporte nacional deles e eles são os campeões mundiais, por isso nada poderia tirar o foco da peteca. Mas você pode imaginar o potencial que o footbag tem entre crianças com tamanha habilidade? Mesmo assim, eu e Tuan decidimos levar o footbag até o Vietnan. Vale dizer que ele, Tuan Vu, é vietnamita, assim como a minha esposa Lonn. Por isso nós dois temos contatos lá, e no futuro vamos retornar e tentar ensinar footbag para o maior número possível de crianças. Então como dá pra ver existe um grande potencial por aí.

O jeito é esperar e ver o que acontece. Apesar de existirem diversos jogadores explorando diferentes estilos de jogo, o primeiro da lista que me vem a mente é Jonathan Schneider, que desenvolveu um estilo e um vocabulário de manobras completamente diferentes do convencional. Outro jogador é Allan Hagget e seu "street footbag", fazendo manobras em escadarias, mesas e bancos espalhados pelas ruas. Mais recentemente temos Jorden Moir. Esse cara sem dúvida inventou uma nova direção pro footbag. Parece que ele sempre tem alguma manobra nova. Por isso, acho que ainda é cedo para o footbag extrapolar o conceito atual de shred. Estou ansioso para acompanhar esse progresso.

FB: Na sua opinião, a exemplo do surf, footbag é um estilo de vida? Como você definiria isso?

PETER: Definitivamente sim. Para se tornar um craque, você precisa dedicar muito do seu tempo e da sua energia ao jogo. Em alguns casos você tem que dedicar sua vida inteira ou boa parte dela a fim de atingir seu potencial. Você tem que comer, beber e pensar footbag. Muitas pessoas estão fazendo isso nesse exato momento. Existe um vocabulário e um linguajar próprio do esporte. Existe um campeonato mundial e organizações em todo o mundo. Existem jogadores excepcionais com estilos diferentes nos quais as pessoas se inspiram para jogar. Existem clubes se formando em todo lugar. Existem websites voltados apenas ao footbag. O footbag agora tem todos os pré-requisitos para ser considerado um estilo de vida. Acho que outras pessoas vão concordar comigo, especialmente aquelas que dedicam seu tempo ao esporte, que sim, footbag é um estilo de vida.

FB: É comum as pessoas terem apelidos em algumas modalidades esportivas e com o footbag não é diferente. Quem lhe deu o apelido de “O Executador”? Quem você matou?

PETER: Kenny Shults me deu esse apelido devido às minhas execuções, ou seja, apresentações sem deixar a bola de footbag cair no chão. Eu já matei muitos pares de Rod Lavers e algumas bolas de footbag, mas nenhum ser humano. E espero que a maioria das pessoas me considere um cara gente boa e uma pessoa amigável :) Muito obrigado pela entrevista.

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